É no infinito de uma linha de fuga que surge a guerreira: a máquina de fazer sangrar e o sujeito discursivo em sangria, de Luiza Romão

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Universidade Federal de Catalão

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Sangría, publicado em 2017 pela editora Selo do Burro, de autoria da poeta e slammer brasileira Luiza Romão, é fruto de um projeto que engloba poesia, performance, ensaio fotográfico e websérie de nome homônimo. A obra, edição bilíngue em português e espanhol, é disposta em formato calendário, seguindo os 28 dias do ciclo menstrual e, a cada dia, um slam-poema e uma imagem delineiam o ritmo e as passagens dos períodos. As fotografias, capturadas por Sérgio Silva, são tratadas em preto e branco e atravessadas por linhas vermelhas e adereços metálicos, como talheres, parafusos, dobradiças, correntes, cruzes, entre outros, costurados a partes do corpo de Romão, ou, a um corpo-mulher-coletivo. A estética e os artifícios linguísticos, como a sonoridade, o ritmo e as inversões, juntos, contam e cantam a história do Brasil e do corpo das mulheres sob a perspectiva do útero (órgão mais característico do constructo ‘ser mulher’), invertendo as posições e abrindo espaços para outra(s) narrativa(s) que não a mesma contada sob a égide masculinista e patriarcal. E é tomando o livro-calendário como materialidade, suporte para enunciados possíveis, que este estudo teve como objetivo central analisar discursivamente, à luz dos pensamentos de Michel Foucault, a constituição da mulher enquanto sujeito discursivo tensionado e produzido em meio às relações de saber-poder. Em gesto também analítico, propusemos a aproximação de conceitos como os de linhas, máquinas/agenciamentos e devir-mulher, advindos da filosofia de Deleuze e Guattari. Para que fosse possível, optamos por selecionar em um primeiro momento, 9 dos 28 poemas/“dias”, contemplando os 6 capítulos/“períodos” da obra. Posteriormente, sequências enunciativas foram recortadas em batimento com o desenvolvimento das análises empreendidas, mobilizando noções como as de enunciado, discurso, sujeito, dispositivo e agenciamento; linhas de fuga e devir. O caminho que optamos por seguir foi pautado na cartografia enquanto estratégia- intervenção de análise, a partir da arqueogenealogia. Vimos, pois, que as mulheres, sujeito discursivo que emerge da materialidade em questão, são constituídas tanto por feixes capturantes dentro das relações de saber-poder quanto por vontades de potência, por linhas de fuga ao passo que se abrem às experimentações e novos processos de subjetivação. Por sua vez, o devir-mulher, que funciona como vetor de força poética em Sangría, é estratégia de resistência e produção da diferença, rachando com espaços e categorias cristalizadas, pautados no dualismo condicionante de gênero. Trata-se de uma máquina de fazer sangrar o instituído; máquina de muitas vozes entranhadas no corpo-mulher-coletivo e que enunciam outras formas de vida, cujas engrenagens forjadas no artivismo e na decolonialidade, potencializam as possibilidades de subjetividades em processos emancipatórios. As mulheres na posição de sujeito discursivo irrompem em meio a uma ordem discursiva que lê e canta a história do presente [e do passado] por uma guinada descontínua, trazendo à tona um domínio de memória que compreende as mulheres, em sua multiplicidade, e lugares de sujeito alocados à margem da sociedade. Ocorre que Sangría não se vale apenas das denúncias, mas do confronto com acontecimentos esquecidos pela narrativa única e do levante, que precisa ser coletivo. Sangría é, também, um convite para a luta|“lútea”.

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