Era uma vez em Javé... o acontecimento discursivo na (re) construção das memórias orais pela escrita
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Universidade Federal de Goiás
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Nesta Dissertação de Mestrado, nos dedicamos a estudar o filme brasileiro Narradores de Javé,
lançado em 2003 nos cenários nacional e internacional por meio de festivais. Compõem o corpus
da pesquisa imagens do filme e falas do roteiro (de 2008), devido à relação harmoniosa entre
ambas as materialidades, cujo tema são dois grandes acontecimentos: a tentativa de produção de
um livro-dossiê e a construção da barragem de uma usina hidrelétrica num vilarejo de práticas
culturais relacionadas à oralidade. Tivemos por objetivo geral compreender o modo como acomunidade javelina (nordestina) e o Vale de Javé (Nordeste) são re-apresentados discursivamente
na e pela ficção, inclusive re-apresentando dramas vividos por regiões e comunidades ribeirinhas
em algumas localidades do país, numa fronteira porosa de (des)identificações, sendo difícil não nos
sensibilizar com o que vemos na e pela tela. Discursos de ampla circulação como ‘o Nordeste é
atrasado e subdesenvolvido’ e ‘o nordestino é forte e guerreiro’ compõem e atravessam a
materialidade em estudo, estando relacionados ao enunciado reitor ‘se Javé tem algo de bom, são
as histórias dos heróis lá do começo’, pronunciado pelo representante da comunidade e aclamado
por muitos, o que nos leva a supor que os próprios javelinos (nordestinos) desacreditam de muitas
riquezas do Vale (Nordeste), com exceção das histórias que (re)contam sobre os heróis fundadores.
O Nordeste, enquanto região, foi gestado discursivamente nos anos de 1920 por uma série de
discursos e práticas sócio-políticas que o definem como o ‘filho da seca’, tradicional, anti-moderno
e cuja produção discursiva não deixa de se (re)atualizar tanto pelos nordestinos quanto por sulistas
e outros. Baseamo-nos na premissa de as regiões e os sujeitos serem construídos nos e pelos
discursos, pelas memórias discursivas, nas relações entre passado, presente e futuro, trabalhados
em vários planos enunciativos. Essas construções comprovam a positividade das relações de saber-
poder, que produzem determinados construtos de verdade, demonstrando que os discursos não são
apenas efeitos de linguagem, mas são produzidos em um campo enunciativo, em dada rede de
sentidos e memórias. Mais especificamente, procuramos entender o contexto e as condições
históricas de produção e circulação do filme; desmistificar algumas questões que saltam a nossos
olhos de espectadora-pesquisadora, como a imparcialidade do pesquisador e a naturalização de
conceitos como cultura, região, ciência, verdade, história, fato histórico, documento, os quais estão
em jogo nessa trama e cujas falsas evidências carregam contradições; ficamos, igualmente,
instigados a refletir acerca da autoria (função-autor) e da ordem do discurso, pontuando as vozes
autorizadas e interditadas no regime de verdades do Vale de Javé. Por meio de uma metodologia
descritivo-interpretativa-analítica de enunciados verbais e não verbais (imagéticos), oferecemos de
início uma panorâmica da história do filme e para o final uma investida nos enunciados-relatos
acerca da chegada de Indalécio (e Mariadina) ao Vale que se tornaria Javé, relatada diferentemente
pelos narradores, que ocupam a maior parte da trama, analisando-os com base na noção de discurso
como acontecimento discursivo, função enunciativa, articulada com as noções de enunciados e
discursos como ‘nós’ de coerência e elos na cadeia de comunicação. Concluímos que comunidades
de tradição oral, como a javelina, diante de sociedades que privilegiam a escrita tendem a viver no
anonimato, sem deixar rastros e ganham alguma visibilidade por meio de relações de saber-poder,
em situações em que ocorre algum tipo de encontro com o poder.
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PERSICANO, Léa Evangelista. Era uma vez em Javé... o acontecimento discursivo na (re) construção das memórias orais pela escrita. 2017. 234 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) - Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2017.
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